domingo, 8 de janeiro de 2012

Maria, uma mulher à frente do seu tempo

Lucas 10.38-42 fala sobre a visita de Jesus à casa de duas irmãs, Marta e Maria. Essas duas irmãs são um exemplo clássico das diferenças entre as pessoas e em família. Afinal, quem eram elas?

Marta é o retrato típico de uma moça tradicional. Digo tradicional, referindo-me à aceitação das tradições sociais de forma passiva. Ela não apenas aceita o que a sociedade impõe, mas vive essas tradições e zela por cumprí-las.  Nós percebemos isso pela forma como ela repreende Maria por não estar cuidando dos afazeres domésticos em primeiro lugar.
Um estudo detlhado de Provérbios 31(pretendo postar em breve) nos dá uma descrição das atribuições para as mulheres judias. A mulher judia era responsável pelo trabalho doméstico, o que não era pouco. Seu trabalho incluía cozinhar, então não mudou muita coisa de lá pra cá, você pode pensar. Porém, para que pudesse cozinhar, era necessário primeiro preparar a farinha, através do processo de moer os grãos. O principal alimento era o pão, um tipo de massa que era preparada sem fermento. Para isso, ainda de madrugada ela precisava se levantar, selecionar os grãos e moê-los. Não com um processador como o nosso, mas com um moinho de pedras, semelhante ao ilustrado na foto. (a foto foi retirada deste blog: http://veraguimaraescavalcanti.blogspot.com/2010/01/natal-2009-em-garanhuns.html)

Muitas outras tarefas faziam parte do trabalho feminino, tais como: costura, cuidar dos animais criados em casa, lavar, costurar, carregar água(lembre-se que naqueles dias não havia água encanada, nem sistema de esgoto). Em alguns casos, a mulher não apenas costurava a roupa, mas preparava tanto o fio de lã e o fio do linho seco, para o processo de tecelagem. Depois de tecido, viria o processo de confecção das roupas propriamente dito.

Marta era uma mulher que compreendia perfeitamente suas obrigações como mulher em sua casa e queria cumprí-las com muito zelo. Ela queria deixar a casa em ordem: casa limpa, comida pronta na hora certa, lamparinas sempre acesas, água nos cântaros.  Ir na casa de Marta deveria ser como quando somos convidados para o almoço na  casa de alguém. Serve-se vários tipos de pratos(a irmã passou horas, talvez tenha iniciado os preparos no dia anterior ou se levantou de madrugada, pra deixar tudo em ordem). A dona da casa quer que tudo seja tão perfeito, que sejamos tão bem servidos, que não tem tempo de sentar-se à mesa conosco, e assim, podermos realmente compartilhar algum tempo juntos, e gozar da sua companhia.Às vezes, a dona da casa está tão ocupada, que só a vemos na hora da despedida, e a única coisa que podemos lhe dizer é que tudo estava uma delícia. E esse, acaba sendo o único relacionamento que temos com quem quis nos receber tão bem.  Imagine como Marta deveria estar atarefada, preocupada, em como iria receber o Amigo e Mestre Jesus, uma figura tão ilustre, tão importante.

Isso nos revela uma característica de Marta: uma mulher voltada para as tarefas, enquanto que, Maria era voltada para pessoas, relacionamentos eram mais importantes. O trabalho diário de uma casa, sempre estaria ali. Mas, Jesus estava só de passagem. Quantas pessoas já passaram por nossas vidas e nós estávamos tão ocupados que não tivemos tempo de estar com elas? Marta é uma mulher conformada com seu papel, apaixonada pelo que lhe era oferecido: trabalho, trabalho, trabalho. Assim era a vida tradicional das mulheres do tempo de Marta. Ela era uma mulher com um objetivo: cumprir suas obrigações como mulher dentro da sociedade.

Porém, Maria era uma mulher inconformada, ousada. Maria queria mais do que a sociedade dizia ser direito dela. Ela queria conhecimento de Deus, ela queria relacionamento com o Mestre. Assentar-se aos pés de alguém é uma referência a ouvir para aprender os ensinamentos de um grande Mestre. O mestre na sinagoga se assentava ao chão com as pernas cruzadas e os alunos à sua frente. Mas, essa era uma prática reservada exclusivamente aos meninos a partir de certa idade, quando começavam a ser ensinados sistematicamente na Lei de Moisés. Lembre-se que Paulo, por exemplo, foi instruído aos pés de Gamaliel. Quando Maria está aos pés de Jesus, Marta se escandaliza, aquilo é um absurdo completo. Marta espera que Jesus, como autoridade masculina, repreenda Maria, colocando-a no devido lugar. "Não percebe Jesus, que Maria não estava fazendo o que é obrigação dela? Olha só, eu sim, estou aqui fazendo o certo, tudo sozinha."  Marta é uma mulher presa às suas obrigações e queria que sua irmã fosse como ela.  Quantas vezes, criticamos as pessoas, e deixamos de amá-la porque queremos que sejam como nós? Quantas vezes não compreendemos a forma como Deus está agindo na vida do nosso irmão, simplesmente, porque ele não serve da mesma forma que nós?

Maria é uma mulher incrível, corajosa. Para sentar-se aos pés de Jesus e aprender dEle é preciso coragem. Nem sempre Ele vai nos ensinar o que queremos aprender e ouvir. Ela é ousada, quebra o protocolo, ousa querer mais de Jesus, mais do Mestre. A pessoas e as convenções sociais dizem a ela: Não. Jesus diz: Sim. E ela escolhe  acreditar na palavra do Mestre. As pessoas dirão a você que não, que Deus não pode fazer mais nada por você, as circunstâncias também lhe dirão não. Jesus lhe dirá: Sim, é possível receber mais, é possível aprender mais, é possível me conhecer melhor, é possível que eu receba sua adoração. Jesus lhe dirá: Sim, ainda tem jeito. Mas só você pode escolher em quem vai acreditar. A ousadia de Maria é manifesta em outra ocasião. Ela é a mesma Maria de Betânia, citada em Mateus 26.1-13. No versículo 11, Jesus deixa claro que Maria reconheceu, compreendeu que nem sempre Ele estaria entre seus díscipulos, por isso ela decide, ela ousa, dar a Jesus algo especial, ela quer fazer por Ele algo que marcasse, algo especial. Então, ela unge os pés de Jesus com um perfume especial. Esse perfume custava cerca de 300 denários, equivalente a 1 ano de trabalho, lembrando que o salário de uma mulher era menor do que um homem. Para ela, isso custaria muito mais.

Maria é uma mulher que aproveita as oportunidades. Na sinagoga, ela não teria oportunidade de estar tão próxima do Mestre, fazer suas perguntas, simplesmente ouví-lo, e ter sua sede saciada. Assim, ela deixa todas as suas tarefas de lado e se assenta aos pés de Jesus. "É agora, essa é a minha chance de conhecê-lo melhor", talvez tenha sido esse seu pensamento.

Marta e Maria são duas mulheres, duas pessoas que recebiam Jesus, que se encontravam com Ele, na mesma casa, mesmo lugar, na mesma hora. Mas, cada uma o recebia de uma forma completamente diferente da outra. Cada uma tinha uma visão, uma expectativa completamente diferente em relação  a Ele, o que as levava a relacionar-se com Ele de maneira diferente.

Para Marta, Jesus era um homem amigo da família, uma pessoa importante. Ela o tratava como faria a qualquer outro homem que frequentava sua casa, servindo-o com água e comida, numa casa limpa e arrumada, seguindo a etiqueta e as regras da boa educação e conduta. E ela espera que Jesus a trate, espera dela o que um homem comum esperaria: que o servisse como deveria. A expectativa de Marta está muitíssimo abaixo da proposta de Jesus.

Porém, Maria enxergou em Jesus o Mestre dos Mestres. Ela compreendeu que Jesus estava acima de qualquer outro, que Ele era a fonte que saciaria a sua sede de conhecimento e iria encher a sua alma. Maria teve uma expectativa muito além do que Marta, por isso, ela recebeu o melhor dEle. Maria desejou um mundo novo, quis mais do que a sociedade lhe oferecia. Maria, uma mulher à frente do seu tempo, Ela desejou mais, buscou mais em Cristo e recebeu dEle o que queria. Ela "recebeu a boa parte, que ninguém poderia tirar dela". O que Maria recebeu, as palavras de vida ouvidas do seu Mestre, ninguém poderia lhe tirar.  
Jesus recebeu a atitude de Maria. Jesus compreendeu sua sede e a saciou. Ele não a ridicularizou como Marta pretendia e esperava que qualquer outro homem faria. Maria recebeu o que Marta não ousaria imaginar ser um direito seu, e nem mesmo, que Jesus pudesse lhe dar.  Ela recebeu a melhor parte. Você quer o que Maria recebeu? Então, busque-o como ela buscou.

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